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A relação entre ciência e narrativa

Como referenciar este texto: A relação entre ciência e narrativa. Rodrigo Terra. Publicado em: 28/10/2025. Link da postagem: https://www.makerzine.com.br/educacao/a-relacao-entre-ciencia-e-narrativa/.

 

Para o professor que busca tornar o ensino mais significativo, compreender esse diálogo é fundamental. A narrativa pode ser usada como ferramenta de mediação do conhecimento científico, tornando conceitos abstratos mais acessíveis e conectando-os às experiências dos alunos.Além disso, aprender ciência não é apenas acumular fatos, é compreender processos, fazer perguntas e encontrar respostas. E essa jornada do pensamento é, em si, uma narrativa. A maneira como apresentamos descobertas, hipóteses e contextos transforma a experiência do aluno e estimula o engajamento intelectual.

A seguir, exploraremos como integrar a narrativa ao ensino de ciências, valorizando tanto o rigor científico quanto a potência afetiva e cognitiva das histórias.

Este artigo apresenta estratégias práticas e reflexões baseadas em pesquisas atuais para inspirar educadores a usar narrativas como aliadas da alfabetização científica.

 

Ciência como construção narrativa

Apesar de seu rigor metodológico, a ciência anda de mãos dadas com a narrativa. O processo científico frequentemente começa com a curiosidade, evolui com hipóteses e culmina em descobertas, que formam uma história lógica e coerente. Essa estrutura é muito similar à de um enredo: uma introdução (observação e pergunta), um desenvolvimento (formulação e teste de hipóteses) e uma conclusão (interpretação dos resultados).

Inclusive, grandes cientistas são exímios contadores de histórias — pensadores que dominam a arte de conectar dados, inferências e interpretações em uma trama plausível que explica o mundo natural. Galileu, ao descrever suas observações telescópicas, não apenas registrava fatos, mas argumentava e narrava para convencer seu público. Einstein, ao propor a teoria da relatividade, também usou metáforas e cenários imaginativos que ajudaram seus contemporâneos a visualizar conceitos abstratos.

Em sala de aula, essa perspectiva pode ser aplicada ao convidar os alunos a criar linhas do tempo de grandes descobertas ou roteiros de experimentos como se fossem cenas de uma peça. Por exemplo, uma investigação sobre o ciclo da água pode ser estruturada como uma aventura científica: o aluno ‘investigador’ segue pistas (observações), formula hipóteses (onde vai parar a água que evapora?) e chega a uma teoria (o ciclo hidrológico).

Ao incentivar os alunos a escreverem ou representarem suas próprias descobertas como histórias, o professor amplia a compreensão dos conceitos e fortalece habilidades de comunicação e pensamento crítico. Nesse processo, os dados deixam de ser apenas números e se tornam peças de uma jornada de descoberta, transformando o aprendizado de ciência em uma experiência mais imersiva e memorável.

 

Narrativas na divulgação científica

A narrativa sempre foi uma ferramenta poderosa na comunicação científica. Seja nos livros de Carl Sagan ou nas conferências de Neil deGrasse Tyson, o conhecimento ganha vida quando é apresentado como uma jornada de descobertas. Esses divulgadores se destacam não apenas por sua competência técnica, mas por sua capacidade de contar histórias que despertam imaginação e curiosidade. Ao usar metáforas, personagens e arcos narrativos, eles tornam acessíveis até mesmo os conceitos mais complexos para o público leigo.

Esse modelo pode ser incorporado ao ambiente escolar para transformar a sala de aula em um espaço de encantamento e investigação compartilhada. Os professores podem, por exemplo, apresentar a trajetória de cientistas históricos, como Marie Curie ou Albert Einstein, como narrativas cheias de conflitos, perseverança e conquistas. Essa abordagem humaniza a ciência e ajuda os alunos a se identificarem com os protagonistas dessas descobertas.

Uma prática eficaz é estruturar as aulas como episódios de uma série: em cada encontro, os alunos avançam em uma narrativa maior, como a da evolução da vida, da origem do universo ou das revoluções tecnocientíficas. Pode-se utilizar recursos como podcasts, vídeos ou dramatizações para enriquecer essa imersão. Além disso, permitir que os próprios alunos criem histórias baseadas em conceitos científicos estimula o pensamento criativo e o domínio de conteúdo.

Por fim, o uso de narrativas na divulgação científica, tanto em materiais didáticos quanto em projetos interdisciplinares, promove o engajamento e melhora a retenção do conhecimento. Ao transformar fatos científicos em histórias significativas, o professor contribui para a formação de alunos mais críticos, curiosos e apaixonados pela busca do saber.

 

O papel cognitivo das histórias na aprendizagem

Do ponto de vista neurocognitivo, histórias envolvem o cérebro de forma mais ampla do que a simples exposição de fatos. Ao ouvirmos ou lermos uma história, ativamos regiões relacionadas à memória episódica, à empatia, às emoções e ao processamento sensorial. Isso significa que o conteúdo transmitido por meio de narrativas tende a ser mais marcante e duradouro, pois associa informações a experiências sensoriais e afetivas.

No ensino de ciências, isso pode ser explorado por meio da criação de tramas que contextualizem conceitos científicos. Por exemplo, ao ensinar sobre células, um professor pode desenvolver uma narrativa onde os organelos são personagens com funções específicas numa cidade celular. Dessa forma, a mitocôndria pode virar uma fábrica de energia, o núcleo um centro de comando, e assim por diante. Essa abordagem facilita a compreensão das funções interdependentes dentro da célula.

Outra estratégia é usar biografias científicas como recurso didático. Relatar a trajetória de Marie Curie ou de Nikola Tesla, com seus desafios, descobertas e conflitos, humaniza a ciência e fortalece o vínculo dos alunos com o conteúdo. Além disso, textos ficcionais de divulgação científica — como “O Homem que Calculava” — são bons exemplos de como histórias podem despertar interesse e compreensão.

Professores também podem incentivar os alunos a criarem suas próprias histórias para explicar fenômenos naturais, prática que estimula a criatividade e a reorganização ativa do conhecimento. Essa abordagem promove a aprendizagem significativa, pois os alunos constroem sentido ao recontar os conceitos sob sua própria perspectiva narrativa.

 

Metodologias ativas com base em narrativas

Modelos como o storytelling, os jogos sérios e as simulações por papéis utilizam a narrativa como motor de engajamento. Em projetos STEAM (ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática), por exemplo, contar uma história em torno de um problema real — como o desafio de criar uma solução sustentável para uma comunidade — estimula não apenas a aplicação dos conhecimentos interdisciplinares, mas também desenvolve o pensamento crítico e a colaboração.

Ao assumir o papel de facilitador de narrativas, o professor transforma a sala de aula em um espaço vivo de descoberta. Um exemplo prático seria conduzir os alunos por uma simulação em que assumem o papel de cientistas tentando conter uma pandemia fictícia. Ao longo do processo, os estudantes precisam pesquisar dados, levantar hipóteses, debater soluções e apresentar resultados, tudo isso imerso numa história com conflitos, dilemas éticos e personagens diversos.

Essas metodologias favorecem o protagonismo do aluno, pois partem de desafios contextualizados que exigem posicionamentos e tomada de decisão. Quanto mais próxima a narrativa estiver da realidade ou do universo simbólico dos estudantes, maior será o engajamento. Incorporar elementos de jogos (gamificação) — como missões, recompensas e níveis de progressão — também potencializa a motivação intrínseca dos alunos.

Para aplicar essas abordagens, o educador pode começar definindo um tema central que dialogue com os conteúdos curriculares e desenhar personagens, dilemas e metas que conduzam os alunos ao longo do projeto. É importante que a narrativa tenha pontos de inflexão onde o conhecimento científico seja peça-chave para a progressão do enredo, garantindo assim que a aprendizagem aconteça de forma contextualizada e significativa.

 

Narrativas de cientistas e diversidade

Contar as histórias de vida de cientistas reais — com seus dilemas, erros e vitórias — humaniza a ciência e amplia a representatividade no currículo. Mostrar que a ciência é feita por pessoas diversas inspira estudantes e combate estereótipos. Quando os alunos descobrem que figuras como Marie Curie enfrentaram barreiras de gênero ou que Katherine Johnson contribuiu decisivamente para a corrida espacial mesmo em meio à segregação racial, eles percebem que a ciência está ao alcance de todos, independentemente de sua origem.

Em sala de aula, os professores podem utilizar biografias, documentários, podcasts ou até dramatizações para vivenciar essas trajetórias. Por exemplo, propor a criação de diários fictícios de cientistas como Galileo Galilei ou Ada Lovelace permite aos alunos explorar os contextos históricos e emocionais por trás das descobertas científicas. Isso fortalece não apenas a compreensão dos conteúdos, mas também a empatia e o senso crítico.

Além disso, incluir cientistas contemporâneos e de origens diversas — como Neil deGrasse Tyson, Joane Garbin ou Eliane Ignotti — amplia a visão dos estudantes sobre quem pode ocupar espaços acadêmicos e tecnológicos. Tais exemplos são fundamentais para inspirar jovens de grupos sub-representados e contribuir para um ambiente escolar mais acolhedor.

Por fim, vale promover atividades onde os próprios alunos pesquisem cientistas de diferentes culturas e apresentem suas contribuições à turma. Essa prática estimula a autonomia, amplia o repertório científico e reforça o valor das narrativas como ponte entre o conhecimento e a identidade dos estudantes.

 

Ferramentas digitais para contar ciência

Hoje, há uma variedade de ferramentas digitais que permitem criar conteúdos narrativos com abordagens científicas, como podcasts, vídeos interativos e plataformas de storytelling digital. Utilizar essas tecnologias em sala de aula permite que os alunos expressem suas interpretações sobre conceitos científicos de maneira criativa e personalizada, incentivando a produção autoral e a troca de conhecimentos.

Por exemplo, ao proporem um podcast sobre mudanças climáticas, grupos de alunos podem se organizar para pesquisar dados, entrevistar especialistas locais e roteirizar um episódio que explique o fenômeno de forma acessível. Ferramentas como Anchor ou Audacity facilitam esse processo, permitindo edição e publicação com poucos cliques. Da mesma forma, a criação de vídeos com aplicativos como Canva ou Adobe Spark pode ser usada para explicar conceitos como fotossíntese, evolução ou ciclos da água por meio de animações e narrações criativas.

Outra possibilidade é utilizar plataformas como StoryMapJS ou Twine para construir narrativas interativas em que os alunos conduzem o leitor por uma linha do tempo científica ou por uma jornada de descobertas. Esses recursos colocam o estudante no centro do processo, como protagonista do aprendizado e agente da comunicação científica.

Ao adotar essas ferramentas digitais estrategicamente, o professor estimula habilidades como pensamento crítico, organização de ideias, letramento midiático e domínio técnico. Além disso, transforma a ciência em uma experiência viva, contada pelos próprios alunos e voltada ao mundo onde vivem.

 

Indícios de impacto no engajamento e na avaliação

Pesquisas recentes apontam que o uso de narrativas no ensino de ciências favorece a motivação e melhora o desempenho em avaliações conceituais. Estudantes que aprendem conteúdos por meio de histórias compreendem melhor os conceitos e são mais capazes de aplicá-los em contextos diversos. Por exemplo, ao utilizar a trajetória de cientistas reais ou fictícios, os alunos conseguem visualizar o processo investigativo por trás das descobertas e desenvolver empatia com os protagonistas do conhecimento científico.

Além disso, alunos relatam maior conexão emocional com os temas, o que fortalece a aprendizagem significativa e de longa duração. Estudos com turmas do ensino médio demonstraram que quando o conteúdo é apresentado como uma jornada problemática, com desafios e soluções, há retenção mais eficaz das informações. Professores podem explorar essa estratégia criando narrativas estruturadas em torno de fenômenos científicos cotidianos, como mudanças climáticas, alimentação ou tecnologia.

Na prática, é possível aplicar essa abordagem por meio de projetos interdisciplinares, em que os estudantes criem seus próprios relatos científicos — seja em forma de podcast, quadrinhos, textos jornalísticos ou vídeos documentais. Essas produções oferecem oportunidades de reflexão, criatividade e síntese de conhecimento, além de valorizar múltiplas linguagens no processo educativo.

Finalmente, evidências mostram que turmas que utilizam conteúdos mediados por narrativa apresentam maior engajamento nas aulas, menor evasão e participam ativamente de discussões científicas. Isso reforça o papel da narrativa como uma ponte entre a curiosidade natural dos alunos e os objetivos curriculares da alfabetização científica.

 

Rodrigo Terra

Com formação inicial em Física, especialização em Ciências Educacionais com ênfase em Tecnologia Educacional e Docência, e graduação em Ciências de Dados, construí uma trajetória sólida que une educação, tecnologias ee inovação. Desde 2001, dedico-me ao campo educacional, e desde 2019, atuo também na área de ciência de dados, buscando sempre encontrar soluções focadas no desenvolvimento humano. Minha experiência combina um profundo conhecimento em educação com habilidades técnicas em dados e programação, permitindo-me criar soluções estratégicas e práticas. Com ampla vivência em análise de dados, definição de métricas e desenvolvimento de indicadores, acredito que a formação transdisciplinar é essencial para preparar indivíduos conscientes e capacitados para os desafios do mundo contemporâneo. Apaixonado por café e boas conversas, sou movido pela curiosidade e pela busca constante de novas ideias e perspectivas. Minha missão é contribuir para uma educação que inspire pensamento crítico, estimule a criatividade e promova a colaboração.

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