Como referenciar este texto: Literatura – Ícones Recentes (Plano de aula – Ensino médio). Rodrigo Terra. Publicado em: 26/01/2026. Link da postagem: https://www.makerzine.com.br/educacao/literatura-icones-recentes-plano-de-aula-ensino-medio/.
A partir de leituras orientadas, o objetivo é que alunos identifiquem traços da pós-modernidade na narrativa, como fragmentação, intertextualidade, humor ácido e questionamento de metarrefências, conectando-os a contextos históricos, sociais e culturais do Brasil. A aula utiliza metodologias ativas para favorecer a construção de conhecimento de forma participativa.
O plano também propõe integração com outras disciplinas, como Artes (música e dramaturgia), História (contexto político e social) e Língua Portuguesa (figuras de linguagem, ritmo e estilo), enriquecendo o repertório dos alunos e promovendo uma formação mais ampla para além da sala de aula.
Ao final, o professor poderá adaptar as atividades para diferentes ritmos e disponibilizar recursos digitais abertos, em português, vindos de universidades públicas e de pesquisa, para ampliar o acesso do aluno a conteúdos de qualidade.
Contextualização histórica e literária
Na década seguinte ao golpe de 1964, a produção literária brasileira enfrentou censura, exílio, a repressão, e, ao mesmo tempo, teve surgimento de vozes críticas que se reorganizavam intelectualmente. A década pós-1969, marcada pela ditadura e pela transição para a redemocratização, viu a literatura buscar novas formas de expressão, rompendo com cânones tradicionais e abrindo espaço para a subjetividade feminina, a ironia e a reflexão sobre a memória coletiva.
As escritoras ganharam destaque ao explorar a voz interior, o corpo, a cidade e as práticas sociais, articulando uma crítica velada às estruturas de poder e aos discursos oficiais. A ironia, o estranhamento e a multiplicidade de perspectivas tornaram-se recursos centrais para questionar a historicidade, a narrativa linear e a ideia de um único ponto de visto.
Na prática, esse movimento se manifesta em obras que dialogam com a cultura de massa, com a urbanidade moderna e com referências intertextuais. A construção de narrativas fragmentadas, o ecletismo de estilos e a presença de referências culturais diversas configuram um retrato da pós-modernidade na literatura brasileira, onde o pastiche e a metalinguagem desafiam o leitor.
Além disso, a literatura desse período passa a interrogar as fontes de autoridade, seja na política, na imprensa ou nas instituições acadêmicas, promovendo uma reflexão crítica sobre memória, identidade e memória coletiva. A leitura crítica passa a ser um eixo pedagógico central, capaz de articular história, literatura e cultura visual, incentivando o aluno a compreender como o contexto histórico molda a forma de contar histórias.
Essa contextualização histórica e literária serve de base para entender como ícones contemporâneos surgem de uma tradição de experimentação que, mesmo sob restrições, favoreceu a inovação formal, a diversidade de vozes e a emergência de uma literatura mais inclusiva e plural.
Ícones da contemporaneidade: perfis e leituras recomendadas
Entre os autores estudados, destacam-se João Ubaldo Ribeiro, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Sérgio Sant’Anna, Cristóvão Tezza, Adriana Falcão, Luis Fernando Verissimo e Chico Buarque, além de parcerias como Gota D’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes.
Esses nomes apresentam estilos distintos — romance, crônica, dramaturgia — e temas como memória, cidade, identidade, resistência e ironia social, conectando-se de modo relevante aos dilemas de jovens leitores da contemporaneidade.
Nessa diversidade, é possível perceber a construção de uma literatura que dialoga com o cotidiano urbano, a memória coletiva e as mudanças de linguagem que marcaram a produção brasileira a partir das décadas de 70 e 80, sem perder o humor crítico e a sensibilidade poética.
Para os estudantes, as obras funcionam como mapas de leitura que convidam a pensar como a linguagem pode ser subversiva, experimental e ao mesmo tempo acessível, abrindo espaço para debates sobre identidade, raça, gênero e classe.
Ao final, sugere-se dialogar com outras mídias, como música, teatro e fotografia, para ampliar o repertório sensorial e ampliar a compreensão de como o texto literário se conecta com as práticas culturais da juventude contemporânea.
Obras-chave para leitura na sala de aula
Gota D’Água (Chico Buarque e Paulo Pontes) é uma dramaturgia que envolve o confronto entre violência política e lirismo, convidando o aluno a interpretar cinema de palco, subtexto e mobilização de emoções. Ao longo da peça, é possível trabalhar como a encenação transforma o texto em imagem, como a orquestração de sons, pausas e gestos revela tensões de poder e resistência, e como o público constrói sentidos a partir de pequenas ações dos personagens. O professor pode orientar leituras de contexto histórico, discutir a relação entre discurso oficial e voz do outro e propor atividades de leitura dramatúrgica que conectem o texto a temáticas de cidadania, memória e ética.
Verissimo Comédias para se ler na escola, de Luis Fernando Verissimo, oferece contos de humor ácido e observações sobre linguagem cotidiana, úteis para discutir registro oral, ironia e construção de personagens. Verissimo utiliza a sátira para revelar aspectos da vida escolar, familiar e social, permitindo que os alunos examinem como a ironia funciona na prática narrativa e como diferentes registros de fala revelam intenções, classes sociais e ritmos regionais. Sugira atividades de leitura em voz alta, criação de diálogos inspirados no estilo do autor e exercícios de reconhecimento de voz autoral, humor e dobra de significado. A análise de personagens pode favorecer a compreensão de motivação, ponto de vista e transformação ao longo do conto.
Nélida Piñón, Melhores Contos (UEL), amplia o repertório com vozes latino-americanas e brasileiras, favorecendo análises de ritmo narrativo, clima e escolhas narrativas. Essa coletânea oferece oportunidades para comparar estilos e geografias literárias, explorando como o ponto de vista, a temporalidade e o clima emocional moldam a leitura. Os alunos podem discutir cadência de frases, repetições, uso de imagens poéticas e a construção de voz narrativa. Além disso, é possível promover leituras cruzadas com outros textos de países lusófonos e hispano-americanos, incentivando o diálogo intercultural e a percepção de temas universais como memória, identidade e resistência.
Para consolidar a aprendizagem, o plano de aula pode oferecer estratégias de leitura guiada, perguntas orientadoras, trabalhos em grupo e portfólios de leitura que contemplem evidências textuais. A integração com Artes, História e Língua Portuguesa pode ser fortalecida por meio de dramatizações, trilhas sonoras, contextos históricos e análise de recursos multimodais, mantendo o foco na formação crítica e no respeito às identidades dos estudantes. As atividades podem ainda prever adaptação de ritmos, opções de leitura com apoio digital aberto e avaliações que considerem compreensão, interpretação e escrita crítica.
Metodologias ativas e atividades em sala
Proposta de atividades: clube de leitura, rodas de conversa, produção de podcast de 5 minutos, mapa conceitual interativo e debates guiados com regras de participação. A ideia é combinar formatos síncronos e assíncronos para manter o engajamento e permitir diferentes estilos de aprendizagem, como leituras em voz alta, síntese visual e produção de áudio.
Além disso, empregue metodologias ativas como a aprendizagem baseada em problemas (PBL), aprendizagem por projetos e estações de aprendizagem, onde grupos rotacionam entre tarefas, questionando documentos, discutindo leituras e apresentando soluções criativas diante de dilemas literários contemporâneos.
As estratégias de avaliação formativa, o portfólio digital e rubricas ajudam o aluno a demonstrar compreensão de estilo, contexto e impacto das obras, promovendo autonomia e responsabilidade pelo aprendizado. A avaliação deve acompanhar o progresso ao longo do projeto, com feedback específico e orientações para a melhoria.
Para facilitar a gestão da sala, planeje sequências de atividades com tempo explícito, roles de facilitação, espaços de silêncio para leitura e momentos de debate estruturado. Considere recursos digitais abertos, acessibilidade, e a possibilidade de integração interdisciplinar com Artes, História e Língua Portuguesa.
Ao final, promova uma curadoria de recursos abordando conteúdos de século XXI, como podcasts, vídeos curtos e textos literários contemporâneos, com a disponibilidade de materiais abertos em Português. Ajuste o ritmo conforme o grupo e ofereça opções de recuperação para estudantes com trajetórias diversas, mantendo o foco na construção de senso crítico sobre ícones recentes da literatura brasileira.
Interdisciplinaridade e recursos abertos
A interdisciplinaridade entre História (contexto político-cultural), Artes (música, dramaturgia e cinema) e Língua Portuguesa (figuras de linguagem, ritmo, voz narrativa e produção textual) enriquece a compreensão da literatura contemporânea, conectando práticas estéticas a processos históricos.
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Para apoiar o ensino, utilize recursos digitais abertos disponíveis em repositórios institucionais de universidades públicas, com leituras, contextualizações e atividades de apoio, sempre em português.
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Exemplos de repositórios abertos (universidades públicas): USP — https://www.teses.usp.br; UFSC — https://repositorio.ufsc.br; UFPR — https://repositorio.ufpr.br; UEL — https://acervo.uel.br; UFRGS — https://repositorio.ufrgs.br. Esses portais hospedam teses, dissertações, artigos e materiais curriculares que podem subsidiar atividades de leitura crítica e contextualização histórica.
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Ao planejar as atividades, proponha passos que integrem leitura, análise de linguagem, produção textual e reflexão histórica, com metodologias ativas. Caso seja possível, inclua links para materiais abertos que facilitem o acesso de estudantes e professores a conteúdos de qualidade.
Resumo para os alunos
Resumo: neste conteúdo, revisitamos ícones recentes da literatura brasileira e seu papel na construção da contemporaneidade, com foco no período pós-69 e na presença da pós-modernidade.
Objetivos da aula: ler criticamente, discutir contextos, comparar estilos e produzir um produto final (podcast, resenha ou mapa conceitual) que demonstre compreensão das leituras.
Metodologia: a turma trabalhará com leituras orientadas, debate guiado em pequenos grupos e atividades de análise de trechos, enfatizando fragmentação, intertextualidade e ironia característica da pós-modernidade, conectando as leituras a contextos históricos, sociais e culturais do Brasil.
Avaliação e recursos: a avaliação será formativa, com rubrica de leitura crítica, participação nas atividades e entrega do produto final. Serão disponibilizados recursos digitais abertos, bibliografia comentada e materiais de apoio acessíveis, promovendo a interdisciplinaridade com Artes, História e Língua Portuguesa e o uso responsável de conteúdos de domínio público.